Ciência 30 Out 2026 · Seltha · 7 min de leitura

Sarah Hallberg e a reversão da diabetes tipo 2 com baixo carboidrato

Prato de comida ao lado de um medidor de glicose numa mesa

Quem recebe um diagnóstico de diabetes tipo 2 ouve quase sempre a mesma mensagem: é uma doença crónica e progressiva, vai precisar de medicação para o resto da vida e, com os anos, provavelmente de mais comprimidos e talvez de insulina. Muitas pessoas aceitam isto como um destino.

Em 2015, num palco da Universidade de Purdue, nos Estados Unidos, uma médica disse uma frase que ficou famosa precisamente por desafiar essa ideia: reverter a diabetes tipo 2 começa por ignorar as diretrizes. Chamava-se Sarah Hallberg, e a palestra TEDx que deu nesse dia já foi vista por milhões de pessoas.

Quem foi a Dra. Sarah Hallberg

Sarah Hallberg era médica nos Estados Unidos, especialista em obesidade e controlo metabólico. Dirigiu o programa de perda de peso médica do IU Health Arnett, no estado do Indiana, e mais tarde foi diretora médica da Virta Health, uma empresa dedicada a tratar a diabetes tipo 2 através da alimentação. Foi também uma voz ativa na discussão sobre políticas alimentares, ligada à The Nutrition Coalition.

O que a tornou conhecida não foi uma teoria nova, mas uma pergunta simples feita aos doentes que acompanhava todos os dias: se a diabetes tipo 2 é, no fundo, uma intolerância aos hidratos de carbono, porque é que a recomendação habitual continua a incluir tantos?

O que a maioria assume — e o que ela contestava

Durante décadas, as orientações alimentares para pessoas com diabetes assentaram numa dieta pobre em gordura, com uma boa parte das calorias a vir de hidratos de carbono (pão, arroz, massa, cereais), controlando depois o açúcar no sangue com medicação. O objetivo era gerir a doença.

A visão de Hallberg era mais ambiciosa: em vez de gerir, tentar reverter. O raciocínio que defendia era direto. Na diabetes tipo 2, o organismo deixa de responder bem à insulina — é aquilo a que se chama resistência à insulina. Cada refeição rica em hidratos de carbono obriga o corpo a produzir mais insulina para baixar a glicose. Se se retirar a maior parte desses hidratos, a glicose sobe menos, a necessidade de insulina diminui e, em muitas pessoas, o metabolismo tende a recuperar sensibilidade.

Como um artigo publicado no British Journal of Sports Medicine sobre a sua palestra sublinhou, as diretrizes da American Diabetes Association nem sequer referiam a reversão da diabetes tipo 2 como objetivo. Para Hallberg, isso era o verdadeiro problema: não se procura aquilo que não se considera possível.

O estudo de 2 anos: os números

Hallberg não ficou pela opinião. Foi uma das investigadoras principais de um ensaio clínico conduzido pela Virta Health em parceria com o IU Health Arnett. Os resultados a dois anos foram publicados em 2019 na revista Frontiers in Endocrinology (Athinarayanan et al.).

O estudo acompanhou 262 pessoas com diabetes tipo 2 que seguiram uma intervenção de cetose nutricional — uma alimentação muito baixa em hidratos de carbono, individualizada, com acompanhamento remoto por médicos e coaches de saúde — e comparou-as com 87 pessoas em cuidados habituais. Ao fim de dois anos, no grupo da intervenção:

  • a hemoglobina glicada (HbA1c) desceu cerca de 12% em relação ao valor inicial de 7,7%;
  • o peso corporal baixou cerca de 10%;
  • 53,5% dos participantes atingiram o que os autores definiram como reversão (HbA1c abaixo de 6,5% sem medicação específica para a diabetes, à exceção da metformina) e 17,6% atingiram remissão;
  • o uso de insulina caiu 62% e o de sulfonilureias foi totalmente eliminado.

No grupo de cuidados habituais, não houve alterações relevantes nestes parâmetros nem na medicação.

Os limites que convém conhecer

Ser honesto com os dados faz parte do respeito pelo leitor. Este foi um estudo não aleatorizado: os participantes escolheram o grupo onde queriam ficar, o que pode influenciar os resultados. Os autores estavam ligados à própria empresa que oferecia o programa. E entre o primeiro e o segundo ano a HbA1c subiu ligeiramente, embora se mantivesse bem melhor do que no início. Nada disto apaga os resultados, mas coloca-os no devido contexto: é uma evidência forte e promissora, não uma garantia universal.

A ideia de fundo: tratar a causa, não só o número

O ponto mais interessante da mensagem de Hallberg talvez seja este: reduzir a glicose com medicamentos enquanto se continua a comer aquilo que a faz subir é, na sua visão, um esforço constante contra a corrente. Ela defendia que a alimentação deve ser a primeira ferramenta, e não um conselho de rodapé.

No modelo que aplicava, a base eram alimentos reais: proteína de qualidade, gorduras naturais e muito poucos hidratos de carbono, com o acompanhamento próximo de uma equipa clínica. Esse acompanhamento não é um pormenor — é uma das peças centrais do método.

E o que isto tem a ver com o Protocolo Seltha

O Protocolo Seltha não é um tratamento para a diabetes, mas partilha com esta linha de pensamento uma ideia essencial: a qualidade e a origem dos hidratos de carbono importam. No nosso protocolo optamos por retirar pão, arroz, massa, cereais e açúcar refinado, colocando a proteína animal e as gorduras naturais no centro do prato, e usando batata-doce, abóbora e fruta madura como fontes de hidratos — sempre depois da proteína e da gordura da refeição. Um exemplo prático é esta receita de robalo grelhado com abóbora.

A diferença é de objetivo e de intensidade: a intervenção estudada por Hallberg era uma cetose nutricional mais restrita e com supervisão médica contínua; o Protocolo Seltha é um método alimentar de estilo de vida, centrado em perda de gordura, energia e equilíbrio.

Um cuidado importante antes de mudar

Se tem diabetes e toma medicação — sobretudo insulina ou sulfonilureias —, não reduza os hidratos de carbono por conta própria. Uma mudança brusca na alimentação pode baixar a glicose muito depressa e provocar hipoglicemias perigosas se a medicação não for ajustada ao mesmo tempo. Foi precisamente por isso que, no estudo, cada participante tinha acompanhamento médico próximo. Qualquer alteração deve ser feita em conjunto com o seu médico.

Fontes

Este artigo é informativo e apresenta a visão e a investigação da Dra. Sarah Hallberg; não substitui o acompanhamento de um médico ou nutricionista. Pessoas com diabetes, sobretudo sob medicação, devem falar sempre com o seu médico antes de alterar a alimentação.

Se quer perceber como uma alimentação com menos hidratos refinados e mais comida real se pode adaptar ao seu dia-a-dia e aos seus objetivos, a equipa Seltha pode ajudar com uma consultoria personalizada, ao seu ritmo.

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